Uma ópera brasileira no Teatro Colón, em Buenos Aires

Buenos Aires, 13 de setembro de 2017​​A obra ‘Piedade’, de Ripper, relata a paixão entre Anna, mulher do escritor Euclides da Cunha, e o cadete Dilermando. Faz ainda o público entender como surgiu esta paixão que levou o autor do clássico Os Sertões a atirar contra o amante de sua mulher e terminar morto por ele.Piedade, obra do brasileiro Ripper no Colón. Os artistas argentinos interpretam Euclides da Cunha (sentado), Dilermando e Anna.Foi a primeira ópera brasileira encenada no Colón, como contou Ripper, comovido logo após a apresentação no sábado à noite. “Eu me emocionei”, disse.Aquela foi a última noite da apresentação da ópera brasileira no histórico teatro argentino.A chuva forte do sábado (10) não impediu que a sala do Centro de Experimentação do Teatro (CETC), em uma espécie de arena, estivesse lotada.A interpretação em português dos três experientes artistas argentinos do mundo da ópera (uma soprano, um barítono e um tenor) foi possível porque eles ensaiaram o idioma e o sotaque com uma professora brasileira.O sotaque deles foi imperceptível. E o talento da soprano Laura Pisani, que terminou entre orando e recitando ‘Piedade’, levou muitos expectadores a saírem comovidos do teatro.Olhos marejados, logo após a apresentação, Laura disse que estava emocionada porque a história de Euclides, Anna, interpretada por ela, e Dilermando era forte demais. “E hoje (sábado) é o ultimo dia”, disse.Enquanto ela falava, com uma voz suave que em nada lembrava a sua potência de soprano, músicos e artistas se abraçavam, comemorando os aplausos do público. Aplausos de pé.A primeira ópera brasileira no espaço do Teatro Colón. Os artistas argentinos interpretando Dilermando e AnnaCom formato do rosto que fez lembrar as feições de Euclides da Cunha (1866-1909), Sebastián Angulegui faz parte do coro do Teatro Colón. Ele e o ator que interpretou Dilermando (1880-1951), Sebastián Russo, realizam duelos de interpretação na ópera escrita por Ripper.Por exemplo, quando cantam para saber quem tem o maior amor por Anna (1872-1951) e ainda na trágica cena final.Pisani, Angulegui e Ruso são profissionais do canto e da interpretação com passagens pelos palcos locais e internacionais. O folheto da ópera Piedade, distribuído no Colón. A legenda diz: Piedade, memória itinerante de uma tragédia sul-americanaA ópera de Ripper, que foi diretor da Fundação do Teatro Municipal do Rio de Janeiro até o início do ano, integrou a apresentação de ópera de câmara do Teatro Colón.“Decidimos dedicar este espaço às obras da América do Sul. E Piedade é muito interessante. Porque apesar de ser uma obra sobre uma história brasileira envolve vários temas da humanidade, como o amor, a paixão, a traição”, disse Marcelo Lombardero, diretor da ópera de câmara do Teatro Colón. Com apenas os três atores no palco, decorado com uma antiga máquina de escrever usada pelo personagem de Euclides da Cunha, dois ou três móveis e malas antigas de viagem, Piedade é acompanhada por legendas em espanhol em discretas telas nos cantos da arena.A direção cênica é de Diego Ernesto Rodrigue, e a direção musical de Federico Victor Sardella, que passou dois anos em Manaus, trabalhando no Festival Amazonas.O toque brasileiro fica ainda para as cordas dramáticas do violão seresteiro do argentino Martín Marino junto à orquestra.Foram quatro apresentações da obra de Ripper sobre a ‘tragédia da Piedade’, o bairro do Rio de Janeiro onde o desenlace do triangulo amoroso ocorreu.Mas certamente haveria público se ‘Piedade’ tivesse ficado um pouco mais no Colón.

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